
Por Yuri Beder.
Ao atravessar a rua naquela manhã de domingo, fui me aproximando de casa, observando atentamente sua fachada de aspecto gasta com a sua pintura branca já meio amarelada mas tranquila, com ela me olhando de volta, repousa ali serenamente sob a sombra da árvore em frente. As janelas, a varanda, as raízes expostas e as plantas que insistem em crescer dão a ela um ar de tempo vivo, desses que sussurram histórias só de olhar.
Naquele momento, essa imagem me levou a outros lugares e me fez lembrar de outras fachadas e interiores de casas, as quais já morei, visitei admirei e repudiei, cada uma com as suas particularidades e peculiaridades.
Mas um detalhe que sempre me chama a atenção é a presença (ou ausência) de vida. Não falo só de gente, mas de elementos que contam que ali habita uma história: plantas espalhadas ou nos cantos das paredes, animais que (re)conhecem o chão, o cheiro que emana sensações do passado vivido ali e principalmente dos saberes populares que circulam pela casa como se fossem parte da mobília, que estão cada vez mais raros, quase relíquia.
Sabe aquela sensação de ir a casa da avó, que ao chegar e entrar, você já encontra um conforto, uma aura e vários elementos que você sabe que só existe ali, seja pela autenticidade ou pela preciosidade? Aquela receitinha de chá-remédio, uma comidinha caseira, o cheiro do café coado, as folhagens para fazer um banho, um bolo assado… e tudo sempre acompanhado com boas histórias e magias não cotidianas.
O nosso chão-ilê é justamente um território de encontros e circulação dos saberes, a possibilidade da confluência existir em muitos níveis e camadas, uma tecnologia única e ancestral quanto a criação do fogo, um lugar onde podemos repousar nossos corpos e onde os nossos medos e sonhos ganham contornos e são construídos.
E temos com a gente essa “arquitetura” colaborativa-intuitiva que muitas vezes refletimos em vários aspectos, lembro que quando me mudei para a minha nova casa na ZN, a minha principal preocupação era entender se naquele espaço ofereceria não só apenas conforto e sentido para mim, mas também para quem estar por vir e vivenciar aquele chão, com todas as sensações, que supostamente acreditamos, que vem de uma familiaridade que nos proporciona um entendimento e olhar sobre o mundo, uma abertura da nossa capacidade de oferecer o que há e temos de melhor.
